Parecerá uma observação demente mas realmente o elemento mais saliente, na nova aerogare do Luxemburgo, é a presença policial. Honestamente, e sem qualquer intenção apriorística, sem malvadez, pode dizer-se que esse aspecto é, mesmo, predominante.
Comece-se por dizer que o edifício é de uma concepção mais do que pobre, quase tacanha. Trata-se simplesmente da antiga aerogare redimensionada e ligeiramente modernizada. De um ponto de vista arquitectónico, a obra é velha à nascença. A disposição dos elementos é exactamente a mesma que na aerogare anterior, apenas contando esta com mais espaço para os utentes passearem o cão, como é habitual nos aeroportos modernos.
Não estejam a torcer o nariz; isto é incontestável. Este conservadorismo está na cara. Tentem lembrar-se onde se situavam, nesse espaço rectangular, os pontos de check-in, os balcões das companhias, os das informações, o da livraria, o restaurante (tanto para visitantes como para passageiros a embarcar), depois vejam onde esses módulos estão colocados na nova estrutura e, por fim, digam-me quais são as diferenças...
E no aspecto prático, a obra é detestável — a começar pelos lavabos dos homens, onde há... um mictório. Um! A malta que lá vai esperar alguém já mijou em casa, claro... Sai-se do parque por um corredor principal que desemboca... onde? Na entrada principal? Não. Em nada. As portas estão largos metros à direita ou à esquerda. Parece a concepção das fronteiras dos países ameaçados (pacto de Varsóvia, Israel, etc.), da embaixada inglesa em tempo de crise iraniana ou de um território em estado de guerra: tu não segues em frente, pá, fazes mas é umas curvinhas que é para evitar os assaltos frontais. As saídas do parque de estacionamento respondem aos mesmos critérios militares: estão concebidas para motorizadas; para automóveis, não. Espaço havia; o concepcionista é que era de vistas curtas, decerto.
Voltemos ao interior do efício. A meio da nave há dois stands: um é o das informações, outro... o da Polícia. A ideia deve ser a de que, num aeroporto, a gente ou pede ajuda (porque os aeroportos são gigantescos, como este...) ou apresenta queixa. Não se vê tal em NENHUM aeroporto europeu, seja ele moderno ou não. E, neles, a polícia está, certamente, presente. Mais: a um nível correspondente ao risco (real ou imaginário). Está lá mas mal se vê; aqui a gente tropeça nela a cada instante!
Três tapetes para a bagagem é um autêntico luxo, relativamente às antigas instalações. Pois, mas com uma diferença: ao sair, o passageiro não vislumbra os habituais funcionários de alfândega; atravessa uma guarda de honra de quatro ou cinco agentes da polícia, daqueles fardados de preto dos pés à cabeça, botas inclusive. Por acaso não têm capuzes; mas só lhes falta esse adereço para a gente sentir que, ou somos nós, ou é o gajo que vem atrás de nós que é o perigoso terrorista que escapou às malhas da segurança do aeroporto precedente.
Tem mais. Estamos à espera que as malas venham de Saarbrucken ou até de mais longe, sabe-se lá, e, em frente, está um grande espelho. Foi posto lá, naturalmente, para que as senhoras retoquem a maquilhagem antes de se apresentarem aos familiares que as aguardam à saída. Claro. Não é a parede atrás da qual, no refúgio invisível, agentes da autoridade vigiam, discretos e impunes, os gestos suspeitos dos impacientes passageiros à espera da mala onde vem a gilette e outros objectos altamente perigosos.
Mimado pelas medidas que garantem a sua segurança e a inviolabilidade dos seus haveres, o passageiro conforme às regras sai e, ao virar a esquina, à cata do amigão que lhe vai dar uma boleia para casa — já que os táxis daqui também mamam da mesma teta que os restantes agentes económicos: para o lado de trás da colina são vinte euros, para o planalto a seguir são cinquenta... —, portanto o tal passageiro, se lhe calha dar uma mirada para trás, depara-se com outro espelho enorme... Pois, não vá dar-se o caso de a maquilhagem não ter sido bem retocada antes ou os cabelos estarem desgrenhados, e assim pode retomar o aspecto conveniente ao bom cidadão... O que se passa por trás do espelho, isso a gente não sabe (·).
Sai-se do edifício, são quase onze horas da noite, é o último avião e o movimento cá fora é igual ao de Moimenta da Beira ao domingo à noite, mas ali, a uma dezena de metros da saída, no parque de estacionamento, virada para a gare, em posição, para qualquer eventualidade, está uma carrinha da... Polícia. À tarde, uns dias antes, na mesma Moimenta em altura de frenesim, quando ao comprido do edifício se alinham, em sentido, duas dezenas de táxis, nervosos e excitados com o movimento, de motores parados para poupar gasóleo, era a mesma evidência. Mas não uma evidência a cavalo; na altura era a pé: um diligente agente, mascarado como os da alfândega, com a mesma fatiota negra, de bastão e coronha de fora, a circular entre os táxis e o parque dos visitantes, certamente à cata de algum embrulho suspeito. A humidade da noite é má para os ossos; a chauffage da carrinha vem mesmo a calhar.
Em conclusão: a velha aerogare de cara lavada presta os mesmos serviços que a apodrecida irmã, só que de uma forma vincadamente mais protectora. É que nós, com todos os riscos que corremos quotidianamente face ao movimento terrorista internacional, sentimo-nos muito mais invioláveis se, na pressa de regressar a casa, esbarrarmos num polícia em vez de num arrumador de carrinhos.
(·) Diz-me um amigo que os amigos alfandegários ficam à cata de movimentos suspeitos nos indivíduos que recolhem a bagagem. Pois... não há cães que farejem droga, não há scanners para outros produtos, as malas não são analisadas, tudo é manual aqui (que'se dizer, visual). Mas não chega espreitar pela fechadura na altura da recolha da bagagem; têm ainda de bisbilhotar, escondidos, o que faz o cidadão à saída...! Eu acho que estas medidas de prevenção não são suficientes; acho que talvez fosse mais seguro eles irem a nossas casas, ou aos hotéis, perscrutar o desfazer das malas...
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Malta das multas, mulas das maltas
Sábado passado ia tranquilamente a caminho de um jantar burguês, por volta das 9 horas da noite, e vi passar um dos famigerados breaks brancos GM (este era o GM 819) com dois abnegados trabalhadores a bordo. Eram nove da noite!
Dir-se-ão: "Olha a novidade! Isso é a prata da casa três dias por semana…" Pois é, eu próprio assisti a essa manifestação de civismo vezes sem conta. Mas desta vez pensei que, a essa hora, não há nenhuma farmácia aberta! E se quiseres, por exemplo, levar uma injecção (das verdadeiras, porque das outras levas a toda a hora e em qualquer lugar) tens de ir à urgências… e há só uma! A essa hora, se quiseres uns tomatitos para fazer uma salada porque afinal chegou mais alguém para jantar, agarras-te aos teus porque os supermercados e as mercearias estão fechados. Umas cenouritas para acabar a sopa? Tens o posto de combustível – mas o raça é que também eles, na sua esmagadora maioria, a essa hora já estão fechados…
Está tudo fechado; os bombeiros têm um piquete reduzido; a tropa deixou os alarmes ligados na caserna e recolheu a casa; os correios abrem amanhã cedinho; cafés e pastelarias ficaram a levedar; está tudo fechado, está toda a gente na sala de jantar; os "multeiros", esses, trabalham… Afadigadamente!
Mas só o fazem às quartas, sextas e sábados à noite, mais os dias de braderie e de feira popular. Que são as alturas mais apropriadas para chupar. Ainda se actuassem apenas contra os abusos evidentes às regras de estacionamento de viaturas; mas não, vai tudo a eito, esteja ou não a incomodar o trânsito ou os demais cidadãos.
Quê?! Bem, não interessa! Calou! O que interessa é que esta é uma cidade onde às SETE da noite as farmácias estão FECHADAS e as mulas... perdão, as multas por estacionamento... estão ABERTAS.
Dir-se-ão: "Olha a novidade! Isso é a prata da casa três dias por semana…" Pois é, eu próprio assisti a essa manifestação de civismo vezes sem conta. Mas desta vez pensei que, a essa hora, não há nenhuma farmácia aberta! E se quiseres, por exemplo, levar uma injecção (das verdadeiras, porque das outras levas a toda a hora e em qualquer lugar) tens de ir à urgências… e há só uma! A essa hora, se quiseres uns tomatitos para fazer uma salada porque afinal chegou mais alguém para jantar, agarras-te aos teus porque os supermercados e as mercearias estão fechados. Umas cenouritas para acabar a sopa? Tens o posto de combustível – mas o raça é que também eles, na sua esmagadora maioria, a essa hora já estão fechados…
Está tudo fechado; os bombeiros têm um piquete reduzido; a tropa deixou os alarmes ligados na caserna e recolheu a casa; os correios abrem amanhã cedinho; cafés e pastelarias ficaram a levedar; está tudo fechado, está toda a gente na sala de jantar; os "multeiros", esses, trabalham… Afadigadamente!
Mas só o fazem às quartas, sextas e sábados à noite, mais os dias de braderie e de feira popular. Que são as alturas mais apropriadas para chupar. Ainda se actuassem apenas contra os abusos evidentes às regras de estacionamento de viaturas; mas não, vai tudo a eito, esteja ou não a incomodar o trânsito ou os demais cidadãos.
Quê?! Bem, não interessa! Calou! O que interessa é que esta é uma cidade onde às SETE da noite as farmácias estão FECHADAS e as mulas... perdão, as multas por estacionamento... estão ABERTAS.
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Não há cravos no Luxemburgo!
Acabei de passar por cinco floristas na cidade do Luxemburgo. Não vi cravos. Em apenas uma havia um vasito com duas flores primas dos cravos, mas murchas de sede, mais uma série de botões em atrasado estado de florescimento. No 25 de Abril não há cravos no Luxemburgo!
Aposto convosco que se as datas de 4 de Julho ou de 14 de Julho tivessem flores associadas, pelo menos tão fortemente como os cravos são associados ao 25 de Abril, todas as floristas por aqui estariam, nessas datas, a abarrotar de tais flores. Duvidam?
Puto de desespero...
No Luxemburgo há 80 mil portugueses. Mas cravos, não.
Aposto convosco que se as datas de 4 de Julho ou de 14 de Julho tivessem flores associadas, pelo menos tão fortemente como os cravos são associados ao 25 de Abril, todas as floristas por aqui estariam, nessas datas, a abarrotar de tais flores. Duvidam?
Puto de desespero...
No Luxemburgo há 80 mil portugueses. Mas cravos, não.
terça-feira, 27 de março de 2007
Ideias, leva-as o vento...
Estou a ler um livro de um jornalista e investigador norte-americano publicado em 1943 (está esgotado, nem pensar em descobri-lo a não ser nalgum alfarrabista empoeirado). O assunto é o papel do ministro das Finanças do Terceiro Reich na reestruturação da economia alemã após o processo inflacionista e a ruína dos anos 20. O qual (Hjalmar Schacht), segundo o autor, conduziu a sociedade alemã (com uma forma moderna de proteccionismo) a um ponto tal que seguiria de olhos fechados, cantando e rindo, qualquer Hitler que lhe aparecesse pela frente.
Adiante. Notaram quando saiu esse livro? 1943. Escrito, portanto, muito antes de se pensar em desembarques na Normandia ou que a reviravolta de Stalinegrado fosse de facto irreversível. Nele, o autor (Paul Winkler) prevê que os "Prusso-Teutónicos" (conceito largo de Alemão mas perfeitamente actual, na época, ainda que objectivamente injurioso) iriam concretizar o seu objectivo de criação de uma união económica centro-europeia centrada na economia alemã sob a batuta da moeda alemã.
Até aqui, nenhuma semelhança com a União Económica Monetária e o sistema monetário europeu?
Ok, prossigamos. No livro há uma referência um trabalho de Charles Andler publicado em 1915, "Les origines du Pan-germanisme", no qual sintetiza as ideias de Friedrich List e outros economistas políticos do século XIX e defende uma «associação [de Estados] que teria de ser baseada no princípio de iguais privilégios para todos os membros».
Winkler cita um extracto interessante (mais hoje até do que em 1943) da obra de Andler, que é o seguinte: «É necessário organizar a Europa continental [...] Napoleão I, grande estratega, conhecia também os métodos da hegemonia económica. O seu sistema continental, que suscitou a oposição até de países que poderiam ter tirado proveito de um tal ordenamento, deveria ser reavivado, mas, desta vez, não como instrumento de dominação napoleónica. A ideia de uma Europa unificada num sólido bloco comercial já não choca ninguém caso seja a Alemanha a assumir a liderança de um tal bloco — não a França. A Bélgica, a Holanda, a Suíça, voluntariamente ou pela força, entrarão nesta 'Federação Aduaneira'. A Áustria será certamente conquistada [pela ideia]. Nem a França [...] será excluída. Os primeiros passos que a Confederação tomaria para assegurar a unidade de pensamento e de acção seria estabelecer um órgão comum representativo e organizar uma frota comum. Mas, claro, tanto a sede da Federação como o seu órgão parlamentar deveriam ser na Alemanha».
Tirando alguns pormenores... é giro, não é?
(Nota: longe de mim ilações sobre qualquer hipotético fio condutor independente de discordâncias políticas, guerras e outras tragédias; muito menos algum sorriso cínico sobre certos "sonhos" de certos pais, padrinhos e restante família)
Adiante. Notaram quando saiu esse livro? 1943. Escrito, portanto, muito antes de se pensar em desembarques na Normandia ou que a reviravolta de Stalinegrado fosse de facto irreversível. Nele, o autor (Paul Winkler) prevê que os "Prusso-Teutónicos" (conceito largo de Alemão mas perfeitamente actual, na época, ainda que objectivamente injurioso) iriam concretizar o seu objectivo de criação de uma união económica centro-europeia centrada na economia alemã sob a batuta da moeda alemã.
Até aqui, nenhuma semelhança com a União Económica Monetária e o sistema monetário europeu?
Ok, prossigamos. No livro há uma referência um trabalho de Charles Andler publicado em 1915, "Les origines du Pan-germanisme", no qual sintetiza as ideias de Friedrich List e outros economistas políticos do século XIX e defende uma «associação [de Estados] que teria de ser baseada no princípio de iguais privilégios para todos os membros».
Winkler cita um extracto interessante (mais hoje até do que em 1943) da obra de Andler, que é o seguinte: «É necessário organizar a Europa continental [...] Napoleão I, grande estratega, conhecia também os métodos da hegemonia económica. O seu sistema continental, que suscitou a oposição até de países que poderiam ter tirado proveito de um tal ordenamento, deveria ser reavivado, mas, desta vez, não como instrumento de dominação napoleónica. A ideia de uma Europa unificada num sólido bloco comercial já não choca ninguém caso seja a Alemanha a assumir a liderança de um tal bloco — não a França. A Bélgica, a Holanda, a Suíça, voluntariamente ou pela força, entrarão nesta 'Federação Aduaneira'. A Áustria será certamente conquistada [pela ideia]. Nem a França [...] será excluída. Os primeiros passos que a Confederação tomaria para assegurar a unidade de pensamento e de acção seria estabelecer um órgão comum representativo e organizar uma frota comum. Mas, claro, tanto a sede da Federação como o seu órgão parlamentar deveriam ser na Alemanha».
Tirando alguns pormenores... é giro, não é?
(Nota: longe de mim ilações sobre qualquer hipotético fio condutor independente de discordâncias políticas, guerras e outras tragédias; muito menos algum sorriso cínico sobre certos "sonhos" de certos pais, padrinhos e restante família)
domingo, 4 de março de 2007
Trilinguismo
O trilinguismo no ensino luxemburguês vai ser tema de uma conferência no dia 7 de Março. Recebi um belo convite (todas as associações portuguesas o receberam) explicando onde e quando e confirmei a minha presença.
Achei graça que, para ilustrar o folheto de divulgação, tenha sido escolhido um desenho onde duas pessoas, sentadas a uma mesa, falam não três línguas mas 5 ou 6. Entre as quais português.
Curioso que o debate sobre o trilinguismo surja num momento em que se discutem ao mais alto nível temas como a dupla nacionalidade (e a eventual condição da língua luxemburguesa como chave de acesso) e o aumento do número de estrangeiros, que tornará a comunidade luxemburguesa minoritária no seu próprio país a muito curto prazo.
Eu vou ao Atehnée na quarta-feira às 20 horas ver o que diz este emérito professor francês que - espero - seja convidado e não contractado para falar da problemática do trilinguismo com objectividade e conhecimento de causa.
E, já agora, pode ser que alguém pergunte porque é que não se fala também de quadrilinguismo... pode ser que algum dos responsáveis presentes pense: "Eh pá, era uma boa ideia incluirmos o inglês!".
Achei graça que, para ilustrar o folheto de divulgação, tenha sido escolhido um desenho onde duas pessoas, sentadas a uma mesa, falam não três línguas mas 5 ou 6. Entre as quais português.
Curioso que o debate sobre o trilinguismo surja num momento em que se discutem ao mais alto nível temas como a dupla nacionalidade (e a eventual condição da língua luxemburguesa como chave de acesso) e o aumento do número de estrangeiros, que tornará a comunidade luxemburguesa minoritária no seu próprio país a muito curto prazo.
Eu vou ao Atehnée na quarta-feira às 20 horas ver o que diz este emérito professor francês que - espero - seja convidado e não contractado para falar da problemática do trilinguismo com objectividade e conhecimento de causa.
E, já agora, pode ser que alguém pergunte porque é que não se fala também de quadrilinguismo... pode ser que algum dos responsáveis presentes pense: "Eh pá, era uma boa ideia incluirmos o inglês!".
domingo, 11 de fevereiro de 2007
A propósito do post precedente...
O texto que se segue foi publicado neste blogue em Setembro de 2003; e como prova o post anterior, mantém toda a sua actualidade. Por isso, e porque nada mudou, aqui fica outra vez:
Sempre gostei de salões de chá. A minha mãe, e mais frequentemente a minha tia-avó, levavam-me até cafés para senhoras que se chamavam salões de chá. Para mim era indiferente o tipo de clientela que frequentava esses locais, iguais aos outros cafés ou pastelarias.
Sempre gostei, contudo, das maneiras dos empregados. Nesses sítios que a Tiji frequentava, eram mais simpáticos que na pastelaria Moderna ou no café Albano e as senhoras pareciam ser todas amigas de velha data. Lembro-me da Xai Xai, no Porto, e do Mário, em Amarante, onde os bolos (quem não for do norte substitua por pastéis para melhor compreensão) eram excelentes e mesmo ali ao lado podiam comprar-se os cromos de todas as colecções que eu andava a fazer, incluindo os raríssimos autocolantes de "O Mundo de Fúria".
No Luxemburgo há muitos salões de chá. A tradição e a idade dos habitantes do Grão-Ducado garante um mercado estável. Talvez seja por isso que nessas casas o atendimento seja dos piores neste país, que já tem, de qualquer forma, como ex-libris comercial a antipatia.
As piores casas de chá são aquelas que se promoveram ao nível de salão-de-chá/traiteur/restaurante. O crescimento forçado abalou definitivamente as estruturas e o limitado profissionalismo dos empregados, difíceis de encontrar, complica as coisas. E quem paga a factura é a clientela.
Os preços, naturalmente, aumentaram quando a subida de divisão se fez, mas o pior preço a pagar é o tempo que se passa: meia hora à espera de uma pizza aquecida no micro-ondas ou quinze minutos é o tempo que demora um sumo de laranja a ser espremido.
Ontem, num desses estabelecimentos uma senhora alemã dirigiu-se ao gerente, que por acaso estava atrás do balcão, dizendo que, cliente há trinta anos daquela casa, nunca tinha sido tão mal servida. Nem o facto de a reclamação ter sido feita numa língua ideal para protestar fez o senhor levantar os olhos dos capuccinos que preparava. Só no momento de lhe dar o troco balbuciou: "estamos desesperados de trabalho. Muitos clientes na esplanada!".
É verdade, o longuíssimo Verão 2003 (graças a Deus!) apanhou desprevenidos muitos restauradores, mas essa desculpa não serve para o resto do ano, em que o serviço sempre foi lento e a maioria dos empregados antipáticos e desagradáveis. Ontem, eliminei as minhas teorias da falta de formação e da inexperiência. Afinal a antipatia e a falta de respeito transmite-se directamente do "senhor Oberweis" ou do "senhor Kohler" desde o alto da pirâmide até ao mais jovem aprendiz.
Sempre gostei de salões de chá. A minha mãe, e mais frequentemente a minha tia-avó, levavam-me até cafés para senhoras que se chamavam salões de chá. Para mim era indiferente o tipo de clientela que frequentava esses locais, iguais aos outros cafés ou pastelarias.
Sempre gostei, contudo, das maneiras dos empregados. Nesses sítios que a Tiji frequentava, eram mais simpáticos que na pastelaria Moderna ou no café Albano e as senhoras pareciam ser todas amigas de velha data. Lembro-me da Xai Xai, no Porto, e do Mário, em Amarante, onde os bolos (quem não for do norte substitua por pastéis para melhor compreensão) eram excelentes e mesmo ali ao lado podiam comprar-se os cromos de todas as colecções que eu andava a fazer, incluindo os raríssimos autocolantes de "O Mundo de Fúria".
No Luxemburgo há muitos salões de chá. A tradição e a idade dos habitantes do Grão-Ducado garante um mercado estável. Talvez seja por isso que nessas casas o atendimento seja dos piores neste país, que já tem, de qualquer forma, como ex-libris comercial a antipatia.
As piores casas de chá são aquelas que se promoveram ao nível de salão-de-chá/traiteur/restaurante. O crescimento forçado abalou definitivamente as estruturas e o limitado profissionalismo dos empregados, difíceis de encontrar, complica as coisas. E quem paga a factura é a clientela.
Os preços, naturalmente, aumentaram quando a subida de divisão se fez, mas o pior preço a pagar é o tempo que se passa: meia hora à espera de uma pizza aquecida no micro-ondas ou quinze minutos é o tempo que demora um sumo de laranja a ser espremido.
Ontem, num desses estabelecimentos uma senhora alemã dirigiu-se ao gerente, que por acaso estava atrás do balcão, dizendo que, cliente há trinta anos daquela casa, nunca tinha sido tão mal servida. Nem o facto de a reclamação ter sido feita numa língua ideal para protestar fez o senhor levantar os olhos dos capuccinos que preparava. Só no momento de lhe dar o troco balbuciou: "estamos desesperados de trabalho. Muitos clientes na esplanada!".
É verdade, o longuíssimo Verão 2003 (graças a Deus!) apanhou desprevenidos muitos restauradores, mas essa desculpa não serve para o resto do ano, em que o serviço sempre foi lento e a maioria dos empregados antipáticos e desagradáveis. Ontem, eliminei as minhas teorias da falta de formação e da inexperiência. Afinal a antipatia e a falta de respeito transmite-se directamente do "senhor Oberweis" ou do "senhor Kohler" desde o alto da pirâmide até ao mais jovem aprendiz.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
Os vendilhões do templo
Li recentemente que o ministro das Classes Médias (deliciosa pasta esta. As Classes Baixas têm para si o Ministério da Defesa; as Classes Altas, todos os outros), um tal de Boden, vai dedicar 3,3 milhões de euros a um comité que tem por missão incrementar o comércio do Luxamburgo e torná-lo «no pólo comercial da Grande Região». O presidente desse comité tem montes de ideias para como utilizar esse dinheiro (para além de no seu salário): «um concurso em que as pessoas vão dizer a sua loja favorita» e «uma sondagem para conhecer melhor as pessoas que compram coisas aqui». Génio. Então e quais são os pontos fortes do comércio nesta vibrante economia de mercado? «O multiculturalismo dos seus consumidores». Ou seja, os pontos fortes dos comerciantes daqui são... os compradores. Tá certo. E os pontos fracos? «Sem dúvida, o atendimento. Toda a gente o diz, temos que fazer aqui um esforço.» Não disse como, mas presumo que umas réguadas nas mãos dos comerciantes possam ajudar... E mais? «Nas lojas utiliza-se sempre o francês, e alguns luxemburgueses não gostam». Brilhante. Mas como os luxemburgueses trabalham todos no sector público, é difícil convencê-los a trabalhar como repositor ou caixa no Auchan e a gastar mais do que o seu salário só na renda do apertamento. É pena, porque seria indubitavelmente um grande incentivo para atrair ávidos consumidores da Grande Região que todos regurgitassem nada mais que luxemburguês atrás do balcão. Mais algum ponto fraco? «Os nossos concorrentes, sobretudo os alemães, fazem uma publicidade muito violenta sobre os nossos preços mais altos». Malandros, é o que eles são. Ainda ninguém tinha notado e pimba!, lá vêm esses gunas querer desviar os nossos queridos pato... clientes só porque vendem os mesmos artigos mais baratos.
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