quinta-feira, 19 de agosto de 2004

Voltem que estão todos perdoados*

O mês de Agosto é um dos melhores meses no Luxemburgo: não está frio, não há trânsito e até os bófias parecem menos interessados em passar multas do que no resto do ano.
Contudo, um estigma estraga este mês tão aparazível: onde estão os meus amigos?
As duas últimas semanas têm sido muito difíceis para mim e o Manel. Se exceptuarmos o Casimiro (que dá mais importância aos quilómetros que corre que à comida que engole), temos sido eu e o Manel e o Manel e eu. Ao almoço, ao pequeno-almoço, ao habitual café da tarde... sempre. Uma pasmaceira.
O Hugo está cá, mas entre os pais e os tios não pára de fazer família-sitting desde há mais de uma semana.
E à noite? Logo agora que a minha inquilina se pôs longe para visitar a família e meu deu umas férias de luxo, não há um gato pingado que me acompanhe nas saídas nocturnas. Salvou-me o Michel que se revelou mais querido pelas dançarinas do Esplêndido que o doutor Roso himself.

*até o Filipe já está quase perdoado por se ter casado e ter filhos e não passar charuto ao pípal.

segunda-feira, 9 de agosto de 2004

Silly season.

A "silly season", como o seu nome indica, leva-nos a fazer coisas que nunca faríamos em situações normais. Deve ser do sol ou do calor, mas qualquer que seja a explicação não me sinto menos "silly" por fazer coisas de que me envergonho depois.
Ontem foi domingo. Para ontem esteve marcado um churrasco organizado pelos meus amigos que, assutados com a chuva do fim-de-semana, decidiram anular todos os planos. O magnífico dia que despontou ontem convenceu apenas o Roso a levar avante o projecto. Como os meus amigos são todos pessoas muito organizadas, nenhum conseguiu reagir com um prazo tão curto e disseram todos ao Roso que não ou que depois passavam por lá para dar duas de conversa.
O Roso comprou os necessários apetrechos numa bomba de gasolina e lá foi com a família. Eu disse-lhe que lhe faria uma visita durante a tarde até porque tinha curiosidade quanto ao sítio que o Ip sugeriu para este churrasco.
Ó Roso, diz-me lá que é que tenho de meter no GPS para ir ter aí. O Roso explicou que não havia nenhum nome de rua naquele canto do Mosela mas que lhe ligasse quando chegasse a Remerschen. Assim fiz, mas não era preciso. A minha co-pilota, à medida que nos aproximávamos do local, começava a temer o pior. Tenho a impressão que já vim a este sítio, e mais do que uma vez, dizia temerosa. Pensei que ela exagerava, e que tinha más recordações dum locval onde vinha com o seu ex que, como toda a gente sabe, é um filho da puta resmengo.
Liguei ao Roso para confirmar e ele disse-me: estás aqui. É mesmo aí, estou a ver o teu carro!
A minha primeira impressão foi péssima. Carros havia umas centenas e pessoas com ar de caxineiros passeavam-se pelas ruas que davam acesso a uma pequena barraca onde se vendiam os bilhetes de acesso. E o pessoal paga para ir práli?!
Também pagámos. 5 euros por duas pessoas. Entrados no recinto a visão é dantesca. O sítio até é capaz de ser bonito se for visitado por um casal com o cio, mas a visão de corpos besuntados e o cheiro de acendalha proveniente dos grelhadores demove qualquer um. Eu, como queria, pelo menos, dizer olá ao meu amigo, insisti e atravessei o relvado de ervas daninhas entre a barriga do senhor Costa e a celulite da madame Schmitt sempre ao som do músioca cabo-verdiana que provinha do rádio de pilhas da família Da Luz.
Quando me sentei ao pé do Roso pude admirar o local e os seus ocupantes com mais vagar, com acompanhamentos musicais tão misturados como os cheiros de sardinha, thüringer e líquido de acender os barbecues. Eu nunca fiz campismo, mas é assim que imagino um parque cheio de gente num dia de Verão. Nem sequer faltam as bichas para as casas-de-banho nem os miúdos a jogarem à bola, ao frisbee e badminton com aquelas raquetes de madeira de praia.
Porque raio é que o Ip nos convenceu a vir práqui com tantas florestas bonitas e agradáveis que o Luxemburgo tem para oferecer? A minha inquilina recusou-se a ficar mais de meia hora e explicou: já aqui passei das tardes mais aborrecidas da minha vida com o meu ex, não me obrigues tu a repetir a dose. Achei que ela tinha razão. Que ir a banhos aqui é demasiado kitsch e proletário para os meus gostos refinados. Posso ser um burgesso, mas sou um burgesso com gostos de luxo.
Ainda por cima, não vi sequer uma única gaja boa. E a única que a minha miopia achava comestível estava sempre a olhar pró Roso, a crer naquilo que ele me disse mal cheguei.

sexta-feira, 23 de julho de 2004

Listening to Franz Ferdinand

Há dias que ando preocupado com alguma coisa. Não é nada de especial que me preocupa mas tudo me aflige. De manhã penso que as coisas vão correr mal. À tarde espero que não me pare a digestão e à noite desejo um sono descansado que teima em não chegar. Por isso deito-me tarde. Faço muitas coisas e não faço grande coisa.
Mas gosto de acordar e ver que lá fora há luz. Não se pode dizer que o sol brilhe porque as nuvens embaciam-no, mas pelo menos nota-se que o equinócio é bom. Que os dias são longos e que logo à noite vamos acabar na Place de Paris a olhar uns para os outros e a beber cervejas Mousel.

sexta-feira, 16 de julho de 2004

Nefasto

Tenho um amigo que... Não vos interessa saber se tenho ou não amigos? A mim também não me rala nada que vos interesse ou não, tenho um amigo e pronto. Tenho um amigo mas, sinceramente, não sei o que fazer com ele. Já me deu para o meter na garagem, ao pé dos pneus de Inverno, mas aquilo para lá está cheio de óleo. Já me deu para o enfiar debaixo da varinha mágica mas eu tenho horror a sumo de tomate, menstruações e outros líquidos burmelhos. Por isso, ponho-me para aqui a dizer coisas, que é o que esse amigo quer que eu faça... e eu faço... É pena que, assim, amande para o fundo textos como este daqui de baixo (o que está aqui mesmo a seguir), que é um texto giro e amanhã já ninguém o vê... Consequência nefasta da vaidade de escrever, é o que é!

Fujam daqui!

O pânico tomou ontem conta das ruas do Luxemburgo no momento em que pequenos pedaços do céu assumiram uma tonalidade azulada e uma bola de fogo surgiu por cima da cidade.
O burgomestre Paul Helminger recomendou à população que mantivesse o sangue-frio e incitou a que todos voltassem ao trabalho como habitualmente, em vez de seguir atitudes tresloucadas como deitar fora o guarda-chuva, despir os cachecóis e os casacos e sentar-se numa esplanada com uma cerveja na mão.
«Já experimentámos este fenómeno antes», declarou o edil. «Há mesmo rumores sustentando que este tipo de acontecimento, conhecido noutros países pelo nome de "bom tempo", pode voltar a acontecer ainda este ano». Um porta-voz do Governo apressou-se já a classificar esta última declaração de «extremamente improvável».

Não me fornique

Há dias, um corpo escorria pelo átrio da estação. Os trapos que o cobriam pareciam ter vindo na mesma remessa, ninguém os teria posto lá. Mas eu, embora não trabalhando nos serviços municipais de limpeza, custa-me ver este jardim desarranjado. É um tique que ganhei na cantina do Ofício. Debrucei-me em busca de um ponto de apoio para a minha gancheta, e o corpo resmungou: “Eh pá, não me fornique”. E, eh pá, eu não o forniquei...

segunda-feira, 5 de julho de 2004

Orgulho nacional

Findo o Euro 2004 o tempo é de balanço. Não me interessa o balanço desportivo nem a prestação da selecção ou o relativo desaire de a taça viajar para terra gregas. Atrai-me o aspecto sociológico deste campeonato que outros, certamente mais aptos que eu (sei lá, estou a pensar no Barreira da Latina ou no Luís Santos, se cá estivesse) irão decifrar nos próximos dias.
A brilhante e surpreendente carreira da selecção provocou uma onda de nacionalismo em Portugal e no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo que não tem precedentes. O desfilar de bandeiras, os bonés e t-shirts e os cachecóis que invadiram o Luxemburgo são apenas uma manifestação visível do orgulho em ser português. Mais importante, e a calar mais fundo, é o prazer que teve por exemplo a Maria, a minha mulher da limpeza, em se levantar mais cedo no dia seguinte ao jogo com a Holanda só para ir dizer à sua chefa na Nettoservice que a Holanda perdeu e ostentar durante o dia de trabalho uma bandeira verde e vermelha na bochecha esquerda. Mais importante é gritar na avenue de la Gare durante uma hora, para quem quiser ouvir, "E esta merda é toda nossa, olé olé!". Mais importante é sair da mó de baixo a pulso de golos e lembrar que somos de uma nação que tem lugar entre os grandes (pelo menos nisto do futebol).
O Euro 2004 foi bom. Fez mais pela consciência nacional e pela não-naturalização de muitos dos nossos compatriotas aqui residentes do que discursos das eminências políticas ou a informatização do Consulado. Pode ser que os Félix Brazes que agora têm 12 ou 15 anos tirem da ideia serem luxemburgueses só porque há que fazer bicha no Consulado ou por causa da papelada militar.