terça-feira, 14 de junho de 2005

Dia da Raça

Junho até começou bem (comprei um casaco novo), mas já há uns dias que tenho pesadelos e durmo sobressaltado. Foi graças a um daqueles momentos de alegre desatenção: desligava eu a minha Playstation e, talvez inebriado pela goleada que tinha acabado de inflingir no PES4, deixei que o televisor deslizasse até à malfadada RTPi. O cérebro estremunhado começou a enviar-me sinais de alerta, mas demorei até encontrar, trémulo, o comando salvador; foi o suficiente para vislumbrar os inanes que vieram ao Luxamburgo como quem vem ao jardim zoológico, a pretexto do Dia da Raça. A fauna que por lá pululava lembrou-me Diógenes: «quanto mais conheço os homens mais gosto do meu cão». Eu quanto mais conheço alguns pseudo-tugas, menos vontade tenho de festejar o Dia da Raça.

quinta-feira, 31 de março de 2005

Ai Wojtyla, Wojtyla...

Sua santidade andou por esta terra em altos luxos, agora está a pagá-las todas juntas. Nem é preciso falar em coisas como os escândalos financeiros, a implicação em redes terroristas ou os negócios em armamento; basta citar a opulência das suas peregrinações. Nas numerosas viagens de turismo e propaganda fazia-se rodear do bom e do melhor: eram tapeçarias únicas, copos do cristal mais fino e louça antiga, só vinhos de colecção, quadros da Renascença para decorar os seus recolhimentos, aviões a abarrotar de assistentes (para as refeições, para o banho, para tratar das unhas, para cuidar do corpinho, para lhe dizer as horas e ligar o ar condicionado). Agora, é a vez de Deus gozar como um alarve: “Andaste para aí à grande e à francesa, agora sofres, meu c...lho!” Deus nem o quer levar. Só quando se fartar de brincar com o Karola. “Santificaste essa vaca da Teresa, tirana de criancinhas asiáticas, agora toma lá. Sofre aí como um perro, antes de te juntares a ela!” Andavas de cu tremido, em carrinho à prova de bala com medo de quê?, de ires mais cedo para junto do Senhor? Ele andava descalço e espetaram-no numa cruz...! Até parece que o estou a ouvir: “Eu cá comia pão seco; tu, era só faisão... Pois agora vais comer pelo nariz, meu sacana!” Há um pedaço da sabedoria popular que deveria ser inscrito nas Escrituras, pois bem parece palavra do Senhor: “Cá se fazem, cá se pagam!” E quando, finalmente, passares para o lado de lá... não penses que vais direitinho pó Paraíso, não; vais ter de virar à esquerda, subir a colina e do teu lado direito verás a porta do Gulag que o amigo Vissarionovich Chugashvili já lá instalou, para ti e para santidades como tu.

segunda-feira, 23 de agosto de 2004

Uma ilha pequena

Pensava não haver dúvidas nos espíritos vivos quanto aos efeitos do elemento geográfico sobre o comportamento das pessoas. O produto de gerações vividas na Madeira ou na Reunião não é de maneira nenhuma o mesmo que o seu semelhante (gerações sucessivas) nas estepes, nos desertos, nas savanas ou nas florestas equatoriais. Mesmo em regiões contíguas: o isolamento de um transmontano e de um alentejano é o mesmo, mas o terreno onde se movem é outro; daí que um seja teimoso e outro casmurro...

quinta-feira, 19 de agosto de 2004

A Madeira será uma ilha pequena?

Ontem uma puta disse-me que não gostou nada de trabalhar na Guadalupe. Estranhei. Porque é que não gostaste? Tanto sol, belas praias. As pessoas, explicou, não são normais. Cheguei à conclusão que de que todos os insulares têm uma pancada. Como assim? duvidei. É. Acredita, insistiu. Então queres tu dizer que os ingleses são todos apanhados do clima? Por acaso até são um bocado, continuou. Mas a Grã-Bretanha não é uma verdadeira ilha no sentido em que é demasiado grande. As pessoas não se apercebem de que estão numa ilha. Percebi a lógica mas continuei a duvidar da veracidade da teoria.
Garanto-te. Há uma espécie de alienação de todas as pessoas que vivem em ilhas pequenas. Ficam transtornadas, diferentes, esquisitas. E no meu trabalho descobrem-se mais facilmente as pancadas que noutro métier qualquer, explicou. Não pude deixar de lhe dar razão. A "line of work" da Karine é de facto uma montra da condição humana como há poucas.
Será que ela tem razão? Será que todos os ilhéus têm pancada? Será que o Casimiro saiu da ilha a tempo? Fiquei a matutar nisto toda a noite enquanto pensava que a Karine tem um dos melhores cús de todos aqueles que já se sentaram em cima da minha mão esquerda...

Voltem que estão todos perdoados*

O mês de Agosto é um dos melhores meses no Luxemburgo: não está frio, não há trânsito e até os bófias parecem menos interessados em passar multas do que no resto do ano.
Contudo, um estigma estraga este mês tão aparazível: onde estão os meus amigos?
As duas últimas semanas têm sido muito difíceis para mim e o Manel. Se exceptuarmos o Casimiro (que dá mais importância aos quilómetros que corre que à comida que engole), temos sido eu e o Manel e o Manel e eu. Ao almoço, ao pequeno-almoço, ao habitual café da tarde... sempre. Uma pasmaceira.
O Hugo está cá, mas entre os pais e os tios não pára de fazer família-sitting desde há mais de uma semana.
E à noite? Logo agora que a minha inquilina se pôs longe para visitar a família e meu deu umas férias de luxo, não há um gato pingado que me acompanhe nas saídas nocturnas. Salvou-me o Michel que se revelou mais querido pelas dançarinas do Esplêndido que o doutor Roso himself.

*até o Filipe já está quase perdoado por se ter casado e ter filhos e não passar charuto ao pípal.

segunda-feira, 9 de agosto de 2004

Silly season.

A "silly season", como o seu nome indica, leva-nos a fazer coisas que nunca faríamos em situações normais. Deve ser do sol ou do calor, mas qualquer que seja a explicação não me sinto menos "silly" por fazer coisas de que me envergonho depois.
Ontem foi domingo. Para ontem esteve marcado um churrasco organizado pelos meus amigos que, assutados com a chuva do fim-de-semana, decidiram anular todos os planos. O magnífico dia que despontou ontem convenceu apenas o Roso a levar avante o projecto. Como os meus amigos são todos pessoas muito organizadas, nenhum conseguiu reagir com um prazo tão curto e disseram todos ao Roso que não ou que depois passavam por lá para dar duas de conversa.
O Roso comprou os necessários apetrechos numa bomba de gasolina e lá foi com a família. Eu disse-lhe que lhe faria uma visita durante a tarde até porque tinha curiosidade quanto ao sítio que o Ip sugeriu para este churrasco.
Ó Roso, diz-me lá que é que tenho de meter no GPS para ir ter aí. O Roso explicou que não havia nenhum nome de rua naquele canto do Mosela mas que lhe ligasse quando chegasse a Remerschen. Assim fiz, mas não era preciso. A minha co-pilota, à medida que nos aproximávamos do local, começava a temer o pior. Tenho a impressão que já vim a este sítio, e mais do que uma vez, dizia temerosa. Pensei que ela exagerava, e que tinha más recordações dum locval onde vinha com o seu ex que, como toda a gente sabe, é um filho da puta resmengo.
Liguei ao Roso para confirmar e ele disse-me: estás aqui. É mesmo aí, estou a ver o teu carro!
A minha primeira impressão foi péssima. Carros havia umas centenas e pessoas com ar de caxineiros passeavam-se pelas ruas que davam acesso a uma pequena barraca onde se vendiam os bilhetes de acesso. E o pessoal paga para ir práli?!
Também pagámos. 5 euros por duas pessoas. Entrados no recinto a visão é dantesca. O sítio até é capaz de ser bonito se for visitado por um casal com o cio, mas a visão de corpos besuntados e o cheiro de acendalha proveniente dos grelhadores demove qualquer um. Eu, como queria, pelo menos, dizer olá ao meu amigo, insisti e atravessei o relvado de ervas daninhas entre a barriga do senhor Costa e a celulite da madame Schmitt sempre ao som do músioca cabo-verdiana que provinha do rádio de pilhas da família Da Luz.
Quando me sentei ao pé do Roso pude admirar o local e os seus ocupantes com mais vagar, com acompanhamentos musicais tão misturados como os cheiros de sardinha, thüringer e líquido de acender os barbecues. Eu nunca fiz campismo, mas é assim que imagino um parque cheio de gente num dia de Verão. Nem sequer faltam as bichas para as casas-de-banho nem os miúdos a jogarem à bola, ao frisbee e badminton com aquelas raquetes de madeira de praia.
Porque raio é que o Ip nos convenceu a vir práqui com tantas florestas bonitas e agradáveis que o Luxemburgo tem para oferecer? A minha inquilina recusou-se a ficar mais de meia hora e explicou: já aqui passei das tardes mais aborrecidas da minha vida com o meu ex, não me obrigues tu a repetir a dose. Achei que ela tinha razão. Que ir a banhos aqui é demasiado kitsch e proletário para os meus gostos refinados. Posso ser um burgesso, mas sou um burgesso com gostos de luxo.
Ainda por cima, não vi sequer uma única gaja boa. E a única que a minha miopia achava comestível estava sempre a olhar pró Roso, a crer naquilo que ele me disse mal cheguei.

sexta-feira, 23 de julho de 2004

Listening to Franz Ferdinand

Há dias que ando preocupado com alguma coisa. Não é nada de especial que me preocupa mas tudo me aflige. De manhã penso que as coisas vão correr mal. À tarde espero que não me pare a digestão e à noite desejo um sono descansado que teima em não chegar. Por isso deito-me tarde. Faço muitas coisas e não faço grande coisa.
Mas gosto de acordar e ver que lá fora há luz. Não se pode dizer que o sol brilhe porque as nuvens embaciam-no, mas pelo menos nota-se que o equinócio é bom. Que os dias são longos e que logo à noite vamos acabar na Place de Paris a olhar uns para os outros e a beber cervejas Mousel.